lunes, 29 de febrero de 2016

POR QUE FOI QUE O PORTUGUÊS AFONSO CRUZ BATIZOU O SEU ROMANCE PARA ONDE VÃO OS GUARDA-CHUVAS?




POR QUE FOI QUE O PORTUGUÊS AFONSO CRUZ BATIZOU O SEU ROMANCE PARA ONDE VÃO OS GUARDA-CHUVAS?

Primeiramente, o português Afonso Cruz chamou desse modo o seu romance Para onde vão os guarda-chuvas por duas mortes que o autor trata na sua obra: a morte do Salim, filho do muslim Fazal Elahi e a morte da velha viyhokim que ainda seguia a esperar ao suposto almasty inglês e mãe do sacerdote que assistiu espiritualmente ao cristão Isa e filho adotivo do Fazal. O lugar onde vão parar, ou vão dar, os guarda-chuvas que perdeu durante a sua vida a namorada do suposto almasty inglês e mãe do sacerdote, que assistiu espiritualmente ao cristão Isa é o céu, mas a assistência e sinalização desse lugar onde vão dar os chapéus de chuva, os crentes em Ala: Deus, é aqui na terra, através dos líderes religiosos. Naquele lugar lá, metaforicamente o céu, estão não só os chapéus de chuva, mas também as memórias das personagens inclusive secundarias como a mãe, viyhokim, do sacerdote que favoreceu e protegeu da lapidação, por parte das crianças, o mulá Mossud, enquanto queria subir novamente a montanha para encontrar o seu marido. Essas duas mortes, do Salim e da velha viyhokim, são referenciadas pelo Afonso Cruz na sua obra em dois capítulos, a primeira no capitulo 70, no qual Afonso afirma que o Salim «chegou ao lugar para onde vão os guarda-chuvas» (Cruz, Afonso, 2013, pg. 267)[1] depois de ter sido atirado por soldados americanos, enviados talvez pelo general Ilia Vassilyevitch Krupin para vingar-se com o filho da adultera Bibi, que além de abandonar o seu marido Fazal Elahi, também tentou, através do seu amante Dilawar, o fumador de ópio e filho do general Krupin, desmascará-lo e puni-lo pelo sua falsa cura da paralisia com o caroço da cerejeira do Tal Azizi e pelos os seus estupros em série de muitas mulheres durante a sua fictícia doença. Mas é preciso esclarecer que a falar em teologia, realmente, o céu, onde vão dar as sombrinhas é um estado da alma: morar sem Deus.

A outra morte é aquela da esposa do inglês que foi contada pelo mulá Mossud ao indiano, depois da sua conversão ao islã, Nachiketa Mudaliar, no capítulo 150: 

                — O inglês então começou a falar de guarda-chuvas,    muito    emocionado. Disse-me que a sua falecida mulher                 perdia, com alguma frequência, guarda-chuvas. Mas    nunca encontrava nenhum. Para onde vão os guarda-chuvas?               São como as luvas, são como uma das peúgas que            formam um par. Desaparecem e ninguém sabe para onde.             Nunca ninguém encontra guarda-chuvas, mas toda a   gente     os perde. Para onde vão as nossas memórias, a nossa      infância, os nossos guarda-chuvas?, perguntava o inglês»            (pg. 492-3).
   
Inclusive o Nachiketa Mudaliar reconhece que, o seu líder, o mulá Mossud é quem sabe onde estão os chapéus de chuva: 

«— Ah, Mossud sahib, que bela história. Imaginou-o a apontar o caminho para a velha viyhokim, dizendo: eis para onde vão os guarda-chuvas, senhor inglês» (p. 493). 

Depois o próprio mulá identifica-se como o líder religioso que sabe onde estão os guarda-chuvas:
«Mas esta história mudou a minha vida. A religião passou a ser tudo para mim. Eu sei onde estão os guarda-chuvas» (p. 493).

Além de o mulá desejar o desaparecimento de todos os infiéis:

 «Os infiéis vivem às escuras. Não têm o mesmo balcão de perdidos e achados que nós temos. E o vazio que pregam é uma doença. Por mim, desapareceriam todos da face da Terra» (p. 494).

O sacerdote que assistiu o filho adotado, Isa, do Fazal Elahi lhe disse: 

                — A minha mae, Sr. Elahi, interrogava-se para onde vão os        guarda-chuvas. Sempre que ela saía à rua, perdia um. E durante    toda a sua vida, nunca encontrou nenhum. Para onde iriam os guarda-chuvas? Eu ouvia-a interrogar-se tantas vezes, que aquele mistério, tão insondável, teria de ser explicado. Quando                eu era jovem pensei que haveria um país, talvez um monte     sagrado, para onde iam os guarda-chuvas todos. E os pares de meias e de luvas. E a nossa infância e os nossos antepassados.   E também os brinquedos de lata com que brincávamos. E os nossos amigos que desapareceram debaixo das bombas. Haveriam de estar todos num país distante, cheio de objetos   perdidos. Então, nessa altura da minha vida, era ainda um    adolescente, decidi ser padre. Precisava de saber para onde vão            os guarda-chuvas?
            E já sabe? Perguntou Fazal Elahi.
            Não faço a mais pequena ideia, mas tenho fé de          encontrar um dia a minha mãe, cheia de guarda-chuvas à             sua volta (pp. 583-4).

No final da novela o autor sepulta vivo a Isa, que ainda não tinha tomado a decisão de sair para fora do caixão, por causa do medo do seu pai Fazal Elahi, o qual ameaçou que o mataria a pancadas se ele, o Isa, estivesse brincando coa sua morte, depois de ter caído pelas escadas que eram muito íngremes.
Tanto o mulá Mossud quanto o padre disputam-se a tenência do balcão de perdidos e achados e o lugar, segundo o autor, onde vão dar os guarda-chuvas. Fica claro que o lugar onde vão dar os guarda-chuvas é o céu e os chapéus de chuva são nossos seres queridos falecidos, em primeiro lugar.  

  

  





[1] Cruz, Afonso. Para onde vão os guarda-chuvas. S. l.: Alfaguara, Santillana Edições, 2013, p. 267.

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