POR QUE FOI QUE O PORTUGUÊS AFONSO CRUZ BATIZOU O SEU
ROMANCE PARA ONDE VÃO OS GUARDA-CHUVAS?
Primeiramente, o português Afonso Cruz chamou desse modo
o seu romance Para onde vão os guarda-chuvas
por duas mortes que o autor trata na sua obra: a morte do Salim, filho do muslim
Fazal Elahi e a morte da velha viyhokim
que ainda seguia a esperar ao suposto almasty
inglês e mãe do sacerdote que assistiu espiritualmente ao cristão Isa e filho
adotivo do Fazal. O lugar onde vão parar,
ou vão dar, os guarda-chuvas que perdeu durante a sua vida a namorada do suposto
almasty inglês e mãe do sacerdote,
que assistiu espiritualmente ao cristão Isa é o céu, mas a assistência e sinalização
desse lugar onde vão dar os chapéus de chuva, os crentes em Ala: Deus, é aqui na
terra, através dos líderes religiosos. Naquele lugar lá, metaforicamente o céu,
estão não só os chapéus de chuva, mas também as memórias das personagens inclusive
secundarias como a mãe, viyhokim, do
sacerdote que favoreceu e protegeu da lapidação, por parte das crianças, o mulá
Mossud, enquanto queria subir novamente a montanha para encontrar o seu marido.
Essas duas mortes, do Salim e da velha viyhokim,
são referenciadas pelo Afonso Cruz na sua obra em dois capítulos, a primeira no
capitulo 70, no qual Afonso afirma que o Salim «chegou ao lugar para onde vão os guarda-chuvas» (Cruz, Afonso, 2013, pg. 267)[1]
depois de ter sido atirado por soldados americanos, enviados talvez pelo
general Ilia Vassilyevitch Krupin para vingar-se com o filho da adultera Bibi, que
além de abandonar o seu marido Fazal Elahi, também tentou, através do seu
amante Dilawar, o fumador de ópio e filho do general Krupin, desmascará-lo e puni-lo
pelo sua falsa cura da paralisia com o caroço da cerejeira do Tal Azizi e pelos
os seus estupros em série de muitas mulheres durante a sua fictícia doença. Mas
é preciso esclarecer que a falar em teologia, realmente, o céu, onde vão dar as
sombrinhas é um estado da alma: morar sem Deus.
A outra morte é
aquela da esposa do inglês que foi contada pelo mulá Mossud ao indiano, depois
da sua conversão ao islã, Nachiketa Mudaliar, no capítulo 150:
— O inglês então começou a falar de guarda-chuvas, muito emocionado.
Disse-me que a sua falecida mulher perdia,
com alguma frequência, guarda-chuvas. Mas nunca
encontrava nenhum. Para onde vão os guarda-chuvas? São como as luvas, são como uma das peúgas que formam um par. Desaparecem e ninguém
sabe para onde. Nunca ninguém
encontra guarda-chuvas, mas toda a gente
os perde. Para onde vão as nossas
memórias, a nossa infância, os nossos
guarda-chuvas?, perguntava o inglês» (pg.
492-3).
Inclusive o Nachiketa Mudaliar reconhece que, o seu
líder, o mulá Mossud é quem sabe onde estão os chapéus de chuva:
«— Ah, Mossud sahib,
que bela história. Imaginou-o a apontar o caminho para a velha viyhokim, dizendo: eis para onde vão os
guarda-chuvas, senhor inglês» (p.
493).
Depois o próprio mulá identifica-se como o líder
religioso que sabe onde estão os guarda-chuvas:
«Mas esta história
mudou a minha vida. A religião passou a ser tudo para mim. Eu sei onde estão os guarda-chuvas» (p. 493).
Além de o mulá
desejar o desaparecimento de todos os infiéis:
«Os infiéis vivem às escuras. Não têm o mesmo balcão
de perdidos e achados que nós temos. E o vazio que pregam é uma doença. Por
mim, desapareceriam todos da face da Terra» (p. 494).
O sacerdote que
assistiu o filho adotado, Isa, do Fazal Elahi lhe disse:
—
A minha mae, Sr. Elahi, interrogava-se para onde vão os guarda-chuvas. Sempre que ela saía à rua, perdia um. E durante
toda a sua vida, nunca encontrou
nenhum. Para onde iriam os guarda-chuvas?
Eu ouvia-a interrogar-se tantas vezes, que aquele
mistério, tão insondável, teria de ser explicado. Quando eu era jovem pensei que haveria
um país, talvez um monte sagrado, para
onde iam os guarda-chuvas todos. E os pares de meias
e de luvas. E a nossa infância e os nossos antepassados. E também os brinquedos de lata com que brincávamos.
E os nossos amigos que
desapareceram debaixo das bombas. Haveriam
de estar todos num país distante, cheio de objetos perdidos. Então, nessa altura da minha vida, era ainda
um adolescente, decidi ser padre.
Precisava de saber para onde vão os
guarda-chuvas?
— E já sabe? — Perguntou Fazal Elahi.
— Não faço a mais pequena ideia, mas tenho fé de encontrar um dia a minha mãe, cheia de
guarda-chuvas à sua volta (pp.
583-4).
No final da
novela o autor sepulta vivo a Isa, que ainda não tinha tomado a decisão de sair
para fora do caixão, por causa do medo do seu pai Fazal Elahi, o qual ameaçou que
o mataria a pancadas se ele, o Isa, estivesse brincando coa sua morte, depois
de ter caído pelas escadas que eram muito íngremes.
Tanto o mulá
Mossud quanto o padre disputam-se a tenência do balcão de perdidos e achados e
o lugar, segundo o autor, onde vão dar os guarda-chuvas. Fica claro que o lugar
onde vão dar os guarda-chuvas é o céu e os chapéus de chuva são nossos seres
queridos falecidos, em primeiro lugar.
[1] Cruz,
Afonso. Para onde vão
os guarda-chuvas. S. l.: Alfaguara, Santillana Edições, 2013, p. 267.
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